Topu Honis Experiência

Podia dizer que tudo foi uma maravilha que adorei cada minuto, mas não é verdade.

Noemia em Topu honis
Noemia em Topu honis

Foi duro, desgastante a barreira linguística dificultou muito e confesso que a futilidade ocupou muitos minutos do meu pensamento:

– Tive saudades da minha casa, da minha casa de banho do meu conforto que nunca valorizo, mas que senti falta

– Tive falta de muita comida e sei que eles fizeram um esforço gigante para nos dar o melhor até vinho arranjaram para o jantar, tivemos carne 2 vezes e pelo que percebi isso só acontece no Natal aos miúdos por isso fomos uns verdadeiros privilegiados

– Senti falta de fazer algo, passear, ter o” me time”

Houve imensos imprevistos que não facilitaram a cruzada:

O dia que íamos embora da montanha para a semi – civilização, já mortinhos por internet; praia; restaurantes, cancelam o barco porque é o final do ramadão o que nos obrigou a ficar mais 4 dias na montanha, sem nada; confesso que ficamos deprimidos durante um dia, nem boa companhia para os miúdos fomos; já estávamos prontinhos para descer – que desilusão

A feliz Tutela - Topu Honis
A feliz Tutela – Topu Honis

A vertente religiosa e zen do Topu Honis muitas vezes colidiu com a minha forma energética e de falta de fé

A falta de eletricidade desesperou-nos em muitos momentos mas também sabíamos que era um gasto gigante e ele ligava 1 hora só para nos satisfazer

Os quilos de piolhos na cabeça que de certeza infestaram as nossas

E claro o não haver internet, telefone nada …

Mas apesar disto tudo adorei !!! Quem diria !!! Adorei cada minuto com os miúdos, aprendi que o pouco faz muito e foi um prazer gigante vê-los repetir a cada minuto os jogos que lhes ensinamos; as músicas que aprenderam…

Fiquei a “Tanta Carla” o nome mais carinhoso de todos os tempos .

Noemia a brinca - Topu Honis
Noemia a brinca – Topu Honis

Ao final da noite, todos os dias, era a competição de quem ficava ao nosso colo e quase adormeciam no colo; essa era claramente a atividade favorita deles.

Todos queriam apenas um minuto de atenção e algum carinho mesmo que fosse de uns estrangeiros que eles sabem que vão acabar por ir embora e se calhar nunca mais os veem.

Numa das noites Tutela tentava a todo custo perceber para onde íamos a seguir o padre dizia em segundos ela vai oferecer-se para ir convosco e no fundo é o que querem serem adotados como os sortudos 6 que já foram, seja por quem for.

No fundo querem uma família mesmo que não saibam o que isso significa.

Aqui estivemos mesmo dentro dos costumes de Timor sentimos as dificuldades do país, da população que todos os dias vinha pedir consolo; conselhos ou uma reza ao padre pelos problemas que tinham. Vimos também gigantes diferenças culturais e saímos todos mais ricos, todos com sentimentos diferentes, todos com experiências diferentes; mas com a certeza que nunca nos vamos esquecer destas semanas intensas.

Puzzle time in Topu Honis
Puzzle time in Topu Honis

A despedida foi com quase lágrimas nos olhos ( não queríamos ser nós a chorar) e a Arica ficou a chorar num canto e nem se veio despedir. Eu confesso que nem quis grandes despedidas porque estava com o coração do tamanho de um caroço.

Não sei se os verei mais, não sei quanto tempo se irão lembrar de nós, mas sei que nunca irei esquecer estas meninas e meninos que tantas gargalhadas nos deram, no fundo vim para aqui para fazer algo que realmente importe e acho que estas crianças deram bastante mais que eu …..

 

Kutet

IMG_5391 (640x427)Aqui em Kutet temos um quarto bem melhor há 4 camas o que permite que cada um durma na sua… claro que metade dos miúdos quiseram dormir na porta do nosso quarto mesmo que isso implique dormir no chão … impressionante …

Durante a noite acordo mil vezes pois o padre vai à  casa de banho a cada 2 horas .. mas mesmo assim dormi muito bem nestes dias em Kutet.

O dia a dia à a brincar com eles e confesso que consegue ser esgotante, mas também maravilhoso; todos os miúdos são híper dados e só querem estar connosco nem que seja a olhar.

Com o avançar dos dias vamos criando mais proximidade e até já lutam pela nossa atenção.

A língua é o único entrave apetecia-me falar com eles horas, mas o meu pouco Tetum; Meto ou Indónésio e o pouco deles de português e inglês faz a nossa comunicação ficar por gestos e meias palavras.IMG_3830 (640x640)

As histórias dos miúdos são todas de muita pobreza, muitos filhos e incapacidade de os pais tomarem conta de todos, claro que métodos contracetivos para aqui é algo que nem é considerado.

Também há vítimas de violência claro, muitas vezes consequência do álcool a Rosita e o Júlio passaram a vida a ser espancados e ameaçados de morte pelo seu pai; a mãe ia tentando protege-los como conseguia, mas um dia teve que se ausentar e o pai trancou-os em casa e disse que quando volta-se era para os matar..Rosita e Júlio conseguiram fugir e chegar a Topu Honis, quando a mãe voltou já não quiseram voltar; são dois dos miúdos mais bem-dispostos da casa.

As idades é um campo do oculto aqui todos os miúdos dizem que têm 11, mas é claro que não têm por isso vão orientando-se pelo ano que frequentam na escola.

As noites são passadas com danças e a aguardente; ou então a vermos fotos do passado da casa; e os miúdos sempre connosco claro

Há alguns meninos que já foram adotados nesta instituição e o padre é bem aberto para isso, para já porque como ele diz nunca nenhum pai se opõe e todos dão autorização, para estes país a quantidade de filhos é um problema e não veem os filhos como nós.

Num dos dias entraram 2 meninos novos, a mãe tinha morrido e o pai não conseguia tomar conta de todos e entrega 2 na minha cabeça só martela, como é que ele escolhe os 2 que entrega? Segundo o padre são os mais novos porque podem trabalhar menos … se calhar são os que terão mais sorte e a rejeição é um golpe de sorte.

 

 

Topu Honis Kutet

 

Estivemos completamente fora do mundo tecnologicos nos ultimos dias num lugar perdido – Topu Honis  que nos deixou o coração apertados, nos próximos dias vou contar tudo.

Hoje levantamo-nos ainda de noite para ir para a montanha para a vila de Kutet.

Carregamos o jipe até não haver mais espaço tanto em número de pessoas como em malas e caixas e iniciamos o caminho…caminho é mesmo a melhor expressão que se pode aplicar à “estrada” que nos leva até lá que em situação normal eu diria que era intransitável.

Demoramos 1hora e 50 para fazer cerce de 15 km, por isso imaginem o caminho.

Topu HonisE chegamos a um local ainda mais perdido do que o que estávamos o que é realmente impressionante e quase impossível de pensar… o conceito de aldeia são 2 palhotas e a instituição está no meio do mato, onde só há porcos, cabras e mato…

A casa tem mais ou menos a mesma estrutura que a anterior, pequenas casas com vários quartos dentro.

Desta vez tivemos direito a um quarto com 4 camas o que implica já um grande upgrade.

As casas de banho é que ainda conseguem ser pior porque o “banho” é ao ar livre …. Ai que saudades da minha casa de banho…Topu Honis

Com os miúdos aqui não é preciso 3 dias para eles se aproximarem ou querem fazer algo tivemos o dia todo a brincar com eles e esgotei todas as minhas brincadeiras: jogo da cadeira, peixinho, mimica, macaquinho do chinês … jogamos tudo.

Os miúdos são apaixonantes e não nos deixam nem um minuto sozinhos; claro que já estamos apaixonados por uma Tutela .. Que caracter … eu leva-a já comigo…

À noite conseguimos colocar um filme para todos verem na TV… que atenção destes 40 miúdos ao ecrã tudo estava congelado a olhar para o ecrã. Topu Honis